| ASSOCIAÇÃO MARIA DE MAGDALA – Jornal de Jundiaí-Regional
25/12/2011 Errar, acertar… E acreditar! Solteira, mãe de 10 filhos, Vandinha perdeu dois e deu sete para adoção. Ficou grávida do primeiro aos 10 anos, quando a mãe lhe expulsou de casa e então se entregou para as aventuras da vida. Hoje faz parte da Associação Maria de Magdala e afirma que aprendeu a enxergar o seu valor. Hoje em dia, Vandinha afirma que prefere fazer faxina a voltar para a vida de antes. |
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| Solteira, mãe de 10 filhos, Vandinha perdeu dois e deu sete para adoção. Hoje faz parte da Associação Maria de Magdala e afirma que aprendeu a enxergar o seu valor
Começou com um pequeno rabisco no papel e, em poucos minutos, o desenho colorido no fundo branco resumiu a vida de Diovanda Ferreira do Nascimento, a Vandinha, 46 anos. Da casa dos pais para o banco da praça, da vida na rua para a prisão, dos erros corrigidos para a liberdade. Liberdade pra dizer, sem pestanejar, que “já fez de tudo nessa vida”. “Só não tirei a vida de ninguém”, afirma Vandinha, sentada numa cadeira ao lado de diversos sapatos espalhados pelo chão. Ela organizava, numa tarde de novembro, os calçados para o bazar permanente da Associação Maria de Magdala, da qual faz parte há alguns anos. É sentada ali, com as mãos ora sobre as beiradas da cadeira, ora sob as pernas, que Vandinha conta um pedaço da sua longa história, desde o dia em que saiu de casa, aos 10 anos, grávida do primeiro filho. “Não tive infância. Minha mãe me mandou embora de casa, arrumei emprego para cuidar do filho de uma mulher”, diz. Vandinha, a menina-mulher, amadureceu cedo. Lembra-se de um dia ter avistado luzes no céu e resolveu pegar um ônibus para chegar até o Centro, em Jundiaí, onde as luzes das casas brilhavam ao longe. Desembarcou na Praça Dom Pedro II – a conhecida Praça das Rosas – em frente ao Hospital São Vicente. “Vi um monte de mulher contando dinheiro nos bancos da praça. Ali conheci a Vera, que se tornou minha amiga, e comecei a ficar na casa dela. Mas para isso eu tinha que dormir com os homens”, recorda. Na época, Vandinha tinha 12 anos. E foi com essa idade que conheceu o melhor e o pior da vida. Envolveu-se com o tráfico, com bandidos, ficou conhecida na cidade; foi presa acusada de cúmplice de homicídio. Condenada a 17 anos, ficou 1 ano detida e saiu da cadeia em 1997, quando voltou para sua casa, no Jundiaí-Mirim. Meio tempo - Enquanto guiou sua vida por curvas tortuosas, Vandinha, sempre solteira, teve 10 filhos. Sem condições de criá-los, doou sete, perdeu dois, e hoje mora com Natanael, o filho de 24 anos. Dois anos antes de ser presa, Vandinha estava sentada no banco ao lado da Catedral Nossa Senhora do Desterro, quando uma mulher se aproximou, perguntando se queria ouvir algumas palavras de Jesus Cristo. “Eu fiquei para ouvir. Muitas levantaram. Então, ela me convidou para ir à Pastoral da Mulher”, lembra. A mulher era Maria Cristina Castilho de Andrade, coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher e da Associação Maria de Magdala - um projeto de reinserção social da pastoral. “Depois que saí da cadeia, procurei a Cristina e disse que não queria mais ter essa vida errada. Ela acreditou em mim, comprou um minimostruário de joias para eu começar a vender, e voltei para a associação.” Hoje em dia, Vandinha afirma que prefere fazer faxina a voltar para a vida de antes. “Me prostituí para dar roupa e comida para o meu filho. O caminho que ensinei a ele foi o da Pastoral, o caminho da escola… Nunca deixei faltar nada para ele. Hoje ando de cabeça erguida, tenho uma casa alugada para viver com meu filho, que é frentista.” A primeira oportunidade que Vandinha teve de mudança foi, na verdade, espiritual. “Foi a oportunidade de conhecer o amor de Jesus”, define. “E também todas as pessoas da Associação Maria de Magdala. Essa mudança significou cura e libertação para mim. Aqui consegui provar para qualquer pessoa do mundo que tenho valor”, relata. O que vem aprendendo na entidade, Vandinha repassa ao filho Natanael. “Hoje ele sabe o que é certo e errado. E espero que ele não troque o amor de Jesus e de sua mãe pelos amigos, pois amigos não são aqueles que oferecem bebida e drogas.”. Aprendizado - Na associação, a falante Vandinha fez curso de pintura e ainda frequenta as reuniões que ocorrem às quartas-feiras, à noite. Para o futuro, ela projeta reformar a casa e visitar o Fernando, um rapaz que estaria preso em Andradina. “Foi o único homem que eu amei. Tenho vontade de visitá-lo, mas não tive mais notícias dele”, comenta. Vandinha conheceu Fernando no Dia das Crianças, quando ele distribuía balas e bexigas para a garotada. Tempos depois, passou a visitá-lo no presídio e ele disse que aceitaria se casar com ela. “Mas ele saiu da cadeia, praticou um assalto, e foi preso de novo”, lamenta. “Ele tinha sido o único homem que me deu atenção e carinho”, desabafa, com o olhar distante. Enquanto dá uma trégua ao coração partido, Vandinha segue a vida da melhor maneira possível, sempre com amparo e apoio das amigas da Associação Maria de Magdala. Hoje ela também cuida dos pais, que estão doentes, vende cosméticos e organiza os sapatos velhos ao seu redor. Cada sola de calçado foi gasta com uma história. E a de Vandinha é esta. PAULA MESTRINEL Magdala: reinserção de mulheres - Em 1995 foi criada a Associação Maria de Magdala, como um “braço” da Pastoral da Mulher. O objetivo do projeto é a reinserção social de mulheres em situação de vulnerabilidade social, dando atendimento também às famílias. Só este ano, conforme explica Maria Cristina Castilho de Andrade, coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher, foram contatadas 141 mulheres, sendo que 29 mantêm frequência assídua na entidade. “Não temos um número exato de quantas mulheres foram atendidas desde 1995, mas em média umas 300″, estima. Entre as atividades oferecidas na sede da associação estão aulas de quitutes (puchero, geleia, compota de frutas…), pintura em tecido, bordado, crochê, tapeçaria, alfabetização e noções de cálculo, participação em grupo de estágio da Faculdade de Psicologia da Unianchieta, atuação em bazares de roupas e sapatos seminovos, e trabalho na cozinha semi-industrial. “A nossa maior conquista foi a implantação da cozinha semi-industrial que, pela vontade de Deus, haverá de crescer. Mostrou-nos o caminho, de acordo com dons e anseios delas, para que consigam um valor financeiro”, relata a coordenadora, que planeja a implantação de um restaurante comercial. Enquanto frequentam a associação, as mulheres optam por continuar na rua (na prostituição) ou não. “Não consideramos a prostituição um trabalho, pois o verdadeiro trabalho dignifica o ser humano e, na prostituição, o corpo é usado e o coração massacrado. Permanecer ou não na rua é um direito delas, embora consideremos que o comércio do sexo e a sua exploração não sejam bons”. O trabalho da associação também é procurar fortalecer as mulheres para que elas escolham, por conta própria, deixar o comércio do sexo. “O importante é que elas saibam que existe um lugar onde é possível partilhar as amarguras e construir um projeto diferente de vida”, diz Cristina. A Associação Maria de Magdala fica na rua Senador Fonseca, 517, Centro. O telefone é o (11) 4522-4970. Na internet: https://associacaomagdala.wordpress.com.
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