Artigos e Crônicas


FEIRA DA SOLIDARIEDADE

No último dia 12 de novembro, aconteceu, com sucesso, na Praça Mal. Floriano Peixoto, atrás da Catedral, a 11ª Feira da Solidariedade promovida pela Cáritas Diocesana, muito bem organizada por sua secretária, a assistente social Maria Rosângela Moretti, com apoio irrestrito de Dom Vicente Costa – bispo diocesano -, do  Diácono Francisco Arantes – presidente da Cáritas – e do Padre Geraldo da Cruz Bicudo de Almeida – coordenador diocesano de ação evangelizadora. Participaram as pastorais e as entidades sociais ligadas à Cáritas, expondo e comercializando o seu cotidiano de convívio com menores e maiores – crianças, jovens, mulheres e homens, idosos – em situação de vulnerabilidade social. E há, também, os assistidos emocionalmente ou mentalmente fragilizados.

A Praça Mal. Floriano Peixoto, com seu chafariz, está presente na memória dos que viveram nesta terra nas primeiras décadas do século passado, fazendo parte do cenário os meninos engraxates, que caprichavam no brilho do sapato e contavam, aos fregueses, sobre sua história e seus sonhos. Por ela passam, como outrora, diariamente, incluídos e excluídos. E quando a noite vem, personagens anônimos, alguns ébrios e outros sóbrios, desencantados com a realidade, procuram uma estrela. E é essa a estrela que a Cáritas Diocesana, com sua Feira da Solidariedade, traz ao centro: é possível ao indivíduo alterar seus passos e, consequentemente, influir nos itinerários da humanidade. Os agentes de pastoral ou das entidades são apenas facilitadores, para que seus integrantes percebam que são realizáveis: mudanças, conquista de direitos, cumprimento de deveres, percepção de dons e cabe, a cada um, fortalecido, encontrar a simetria do caminho.  

A praça me faz lembrar “Um frevo novo”, que é música de Caetano Veloso que mexe com o coração: “A praça Castro Alves é do povo/ Como o céu é do avião (…)./ Todo mundo na praça,/ manda  a gente sem graça pro salão. (…) Mete o cotovelo/ e vai abrindo o caminho./ Pega no meu cabelo/ pra não se perder/ e terminar sozinho./ O tempo passa,/ mas na raça eu chego lá./ É aqui nesta praça/ Que tudo vai ter que pintar”.

Caetano Veloso parafraseou Castro Alves em seu poema “O Povo ao Poder”: “A praça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor/ É o antro onde a liberdade/ Cria águias em seu calor!”

Não existe solidariedade sem liberdade para que seus atores saiam do confinamento e se expressem; sem a constatação do pertencimento. A Feira da Solidariedade da Cáritas, na Praça Mal. Floriano Peixoto, que pertence ao povo, oferece visibilidade aos que o mundo prefere não enxergar, sinaliza, cada vez mais, a igualdade de todas as criaturas de Deus e clama pelas mesmas oportunidades aos diferentes.

 Maria Cristina Castilho de Andrade

PENHORA

Converso bastante com pessoas que se encontram nas bordas da sociedade. Aquelas que, por razões diversas, como desestrutura familiar, violência dentro de casa, atraso mental, doenças mentais, confusão interior, falta de oportunidade na escola e no mercado de trabalho, situações de miséria material, moral, cultural, dependência química, foram empurradas para as margens. A maioria acaba usada para o lucro de algum incluído. Quando estou com eles, por primeiro me vem a paternidade carinhosa de Deus, o Seu olhar de amor, evocado no Salmo 138 (13-15) a respeito de cada um dos seres humanos: “Fostes Vós que plasmastes as entranhas de meu corpo,/Vós me tecestes no seio de minha mãe./ Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso./ Pelas Vossas obras tão extraordinárias,/ conheceis até o fundo a minha alma./ Nada de minha substância Vos é oculto,/ quando fui formado ocultamente,/ quando fui tecido nas entranhas subterrâneas”. Em seguida experimento uma sensação de maternagem, cuidando um pouco das dores, nem que seja apenas no ouvir, de mulheres e homens, de meninas e meninas, que choram sem colo.

Um dia desses, ouvindo um deles, perguntei como se aguentam, interiormente, alguns excluídos e excluídas, mulheres, homens, travestis, que expõem, sob a luz dos postes, a intimidade de seus corpos, sujeita à venda. Aumentam o apetite dos que, no vazio, perderam-se do amor e pagam um relacionamento com a ilusão de serem amados ou de fugirem da angústia que os estrangula por não encontrarem um sentido maior para suas vidas. Respondeu, sem titubear, que aqueles que tornam público, nas calçadas, o que é particular, estão penhorados para uma cafetina ou um cafetão, capatazes do mundo contemporâneo. Feriu-me o termo penhora em referência a gente. É uma palavra pesada, que não havia escutado na exploração do comércio do sexo, embora soubesse das perversidades geradas por essas negociações.

Penhora é uma apreensão judicial por parte de um solicitador de bens dados pelo devedor como garantia de execução de uma dívida. Ou seja, para que o prostituído ou prostituída renda mais, o aliciador oferece-lhe silicone, roupas, adereços, moradia até, aceitas pela impossibilidade de um discernimento maior. E a pessoa fica como posse, sob a guarda de abutres, perdendo o direito à liberdade e com dívidas vultosas. Negociados nas noites, exige-se um valor diário mínimo. O desespero arranca a roupa e transforma em farrapos o coração e a alma.

Existe pelo ar uma indignação compreensível com os corpos despidos, contudo poucos se importam com “o prazo de vencimento da hipoteca” a que são submetidos seres humanos que caíram nas malhas da prostituição. Os exploradores são ignorados e se almeja que os explorados sejam banidos. Quem pode ir às raízes do problema para combatê-lo?

Tomara, um dia, não se tenha seres humanos em anúncio de leilões de centavos como Kit Lazer, aspirador de pó, Smartphone, Frigobar… O certo é que Deus continua a observar cada um como aquela, como aquele que Ele teceu nos subterrâneos maternos.

Maria Cristina Castilho de Andrade

04.10.11 – Brasil

Mulheres reféns do Crack

PUCRS Informação

Revista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul publicada pela Assessoria de Comunicação da PUCRS.

Adital

Terça-Feira, 04 de Outubro de 2011

Acompanhar o processo de desintoxicação de usuárias de crack e identificar os fatores de vulnerabilidade a que essas mulheres foram expostas, durante a infância e a adolescência, associados à fissura. Com esse objetivo o professor Rodrigo Grassi de Oliveira, coordenador do curso de Psicologia da PUCRS, comanda a pesquisa Estudo de coorte sobre fatores de vulnerabilidade associados ao craving em dependentes de crack: impacto da negligência na infância na cognição, comportamento e resposta neuroendócrina. O projeto desenvolvido no Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse (Nepte) da Faculdade, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) investiga fatores de risco para uso do crack ao observar o comportamento de 260 pacientes internadas na Unidade Psiquiátrica São Rafael, do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre. O perfil encontrado é de mulheres entre 18 e 50 anos, usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e de diferentes classes sociais.

O monitoramento das pacientes é de 21 dias, período médio da internação para desintoxicação. A pesquisa começou em março de 2011 e conta com 60 mulheres avaliadas. Até o momento, foi identificada uma diminuição do risco de suicídio, uma redução importante da depressão e estabilização dos sintomas de craving, a chamada fissura, um dos mais graves e intensos em usuários de crack. “A previsão é de resultados inovadores, de potencial importante, já que existem poucas pesquisas com abordagem interdisciplinar na investigação do processo de desintoxicação do crack”, prevê Grassi.

O destaque dos resultados parciais é a relação com histórias de maus tratos na infância, em especial de negligência, e a dificuldade para reduzir os sintomas de fissura. “Essas mulheres levam o dobro do tempo das demais para superar essa fase. A hipótese é de que o estresse torna vulnerável o cérebro da criança e faz com que seu sistema de recompensa seja impactado, em virtude de alterações no desenvolvimento das estruturas cerebrais relacionadas, o que mais tarde cria uma dificuldade de controlar demandas de dependência química”, explica.

Segundo o professor, das 60 mulheres investigadas, mais de 75% sofreram maus-tratos na infância. “Isso é importante porque o maior problema do crack é a recaída. Algumas delas estão internadas novamente e um dos fatores que contribuiu é a sensação de fissura”, complementa. Há também uma hipótese neurobiológica relacionada com o efeito que o estresse precoce provoca no desenvolvimento do sistema de recompensa no cérebro. Os dados serão apresentados somente ao final do estudo, previsto para o segundo semestre de 2012. “O estresse precoce da criança contribui para o contato com as drogas. Essas pessoas se tornam mais suscetíveis a buscar alternativas de transgressão, como o uso de substâncias psicoativas. Quanto mais cedo a pessoa for exposta à droga, mais difícil será não se viciar e mais difícil será a desintoxicação”, revela Rodrigo Grassi.

Segundo o psiquiatra, a média de idade para o início do uso de drogas nessa amostra é de 12 anos para substâncias como maconha e cocaína. O uso de álcool e cigarro começa mais cedo, por volta dos nove ou dez anos. “O estudo pretende mostrar a importância da prevenção primária. Políticas públicas de bem-estar infantil, reforço no Conselho Tutelar e intervenção familiar podem evitar esses problemas. Queremos quantificar a importância de uma infância adequada e evidenciar o dano que pode levar à intervenção”, garante o pesquisador.

Os quatro pilares da pesquisa

Entre as várias perguntas que o projeto da Faculdade de Psicologia busca responder, a principal é do ponto de vista psicobiológico: o que acontece com pacientes durante a desintoxicação? Para encontrar as respostas, o projeto avalia aspectos biológicos, clínicos, cognitivos e comportamentais relacionados ao craving (fissura). Os resultados atuais foram obtidos com a avaliação de vulnerabilidade, na parte comportamental, onde está a principal relação com o estresse.

No âmbito cognitivo, verificam-se as funções executivas como julgamento e tomada de decisão. São realizados testes de memória e de atenção, como o experimento chamado Iowa Gambling Task, que consiste em um jogo de cartas para simular decisões da vida real em um paradigma de lucro e perda. Na área clínica são avaliados sintomas de depressão, ansiedade, fissura, gravidade da dependência química, transtornos psiquiátricos e comportamentos autolesivos.

Os estudos biológicos utilizam o fio de cabelo para identificar o grau de exposição ao hormônio do estresse nos últimos meses em uma parceria com o Laboratório de Toxicologia. Para cada centímetro de cabelo é possível determinar um mês. Por meio de amostras de sangue, em parceria com o Laboratório de Imunologia do Estresse, são analisados os marcadores inflamatórios, neurotróficos (responsáveis pelo crescimento de neurônios) e hormonais.

A pesquisa é desenvolvida por uma equipe multidisciplinar, em parceria com grupos de pesquisa do Nepte, do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular da UFRGS e da equipe de Ação Social do Hospital Mãe de Deus. A coleta de dados conta com oito pesquisadores, sendo três do Hospital Mãe de Deus e cinco da PUCRS. No laboratório da Universidade, quatro profissionais trabalham na extração do material biológico e dois no gerenciamento de dados. Estão envolvidos profissionais de Psicologia, Psiquiatria, Enfermagem, Terapia Ocupacional e Educação Física.

Reabilitação pelo exercício físico

As Faculdades de Psicologia e de Educação Física e Ciências do Desporto da PUCRS (Fefid) pretendem implementar, em 2012, um projeto para intervenção na reabilitação cognitiva por meio da atividade física. Durante o segundo semestre de 2011, haverá uma seleção de alunos da iniciação científica e dois professores da Fefid serão capacitados no Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse (Nepte), vinculado à Faculdade de Psicologia, para trabalhar com trauma.

A proposta é desenvolver um programa de exercícios aeróbicos e de força com pessoas expostas a trauma na infância. Há uma série de evidências na literatura médica que mostra a redução de sintomas de fissura, de depressão e de ansiedade, além do aumento do período de abstinência por meio de exercícios físicos em dependentes de cocaína. “O exercício pode ser uma alternativa importante”, esclarece o professor Rodrigo Grassi.

[Fonte: Revista PUCRS Informação Edição nº 156, setembro/outubro de 2011].

PAN, GUADALAJARA E EXCLUÍDOS

Noticia-se que, há algumas semanas, devido aos Jogos Pan-Americanos (de 14 a 30 de outubro) em Guadalajara, as autoridades locais iniciaram uma ação para que sejam retiradas prostituídas das zonas centrais da cidade, embora Aristóteles Sandoval, prefeito do município mexicano, negasse que adotaria esse tipo de conduta. O jornal “Milenio”, contudo, confirma que a expulsão começou pelo Parque Morelos.
Segundo informações do provedor Terra, em 30 de setembro, no dia seis de maio
deste ano, uma comissão da cidade apresentou um programa denominado Plano de
Reordenamento Humano, no qual projetava “livrar” as áreas turísticas de Guadalajara
de prostituídas, mendigos, meninos de rua e indígenas. Denominam esse posicionamento
como “limpeza social” e entendem que essas personagens poderiam amedrontar os
turistas.

É a lógica dissimulada de nossa sociedade, não somente do México, construída sob e sobre aparências. As prostituídas revelam a violência sexual infanto-juvenil; o estímulo à
promiscuidade sexual; a falta de oportunidades na família, na escola, no
mercado de trabalho; o narcotráfico que busca a dependência química de meninos
e meninas; a migração para os grandes centros urbanos, nos quais a acolhida se
faz do uso e abuso de mão-de-obra barata e de empurrões para as margens. As
prostituídas, que perambulam pelas ruas, em situação de decadência, são o
retrato mais visível do comércio do sexo, que vê corpos com vida à medida que
geram lucros e os transformam em cadáveres no declínio da carne. Os mendigos
sinalizam uma coletividade falida, que não se preocupa em oferecer um
tratamento com dignidade ao diferente e nem mesmo uma atenção individualizada
mais eficaz na saúde mental. Os meninos de rua são os rebentos da desestrutura
familiar, da falta de: investimento na família, escola inclusiva e  projeto de habitação que liberte as pessoas de um entorno ligado à criminalidade. Os indígenas, em situação de penúria, denunciam, em toda a América, a prepotência do homem branco, que destruiu suas paisagens, manchou os seus rios, zombou de suas crenças e pisou com ferraduras
em suas terras sagradas. E onde se encontrarão os que transformam gente em
adubo? Serão aplaudidos em camarotes?

Penso em Nossa Senhora de Guadalupe, patrona da Cidade do México e da América Latina, que apareceu a um pobre índio da tribo Nahua, Juan Diego, em 1531. Ela que fez crescer flores numa colina semidesértica em pleno inverno, deixou sua
imagem impressa milagrosamente na tilma de Juanito e, nos olhos dela, segundo
alguns estudiosos, se encontram várias figuras humanas, incluindo um bebê
levado nas costas por sua mãe. Que a Virgem de Guadalupe proteja, com seu manto
materno, nesse momento de agressão ao ser humano, os filhos do desamparo que
vagam pelas ruas de Guadalajara e conceda, aos mascarados, a coragem de tirar
os disfarces e entrar na claridade.

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala

A Igreja e as Estatísticas

 

Dias atrás, quando fomos informados pelo Papa Bento XVI que a próxima Jornada Mundial da Juventude será realizada no Brasil, em 2013, a mídia, com base em pesquisa de 2009, divulgou notícia a respeito do aumento numérico de outros seguimentos religiosos não católicos, inclusive dos que optam por não ter nenhuma religião ou que preferem o ateísmo.

As jornadas mundiais da juventude têm demonstrado a ansiedade das novas gerações na busca de Jesus Cristo, reunindo milhões de rapazes e moças do mundo inteiro, formando, por uma semana, imensa comunidade juvenil sem limites geográficos, reunida ao redor do chefe visível da Igreja, pronta para ouvir a sua palavra e motivada a celebrar os Mistérios da fé, com entusiasmo e ao mesmo tempo com sensível espírito de concentração, silêncio sagrado, como ficou evidente em Madri.

As estatísticas brasileiras a respeito da mobilização religiosa são colocadas aos católicos como um desafio, provocando pergunta inevitável: quais têm sido as razões para este efeito?

Num primeiro momento, os dados colhidos em pesquisa não deixam de causar preocupação, uma vez que despertam a interrogação sobre as possíveis lacunas nos métodos evangelizadores. Porém, análise mais madura e serena provoca tranqüilidade. Levando-se em consideração que o método das pesquisas de 2009 foi questionável, o que gerou, na ocasião, abalizado artigo de protesto do Cardeal Dom Odilo Sherer, é curioso observar como as pesquisas não revelam o crescimento das comunidades católicas que tem provocado a criação de novas paróquias por todo o Brasil, novas comunidades e o crescimento inexplicável de movimentos eclesiais católicos que cada vez mais arrebanham pessoas desanimadas ou desiludias não só religiosamente, mas também com a situação existencial, para não falar das que perderam a fé nas correntes políticas no país. Influenciada pela mentalidade mercantilista de concorrência, muito própria dos regimes capitalistas, causando impressão que somente o critério da maioria é que vale, ou pela mentalidade totalitarista que imprime a crença na força do poder e a desastrosa crença que os fins justificam os meios, gerando violência para impor regimes políticos, as estatísticas pecam contra a verdade enquanto revelam apenas parte da situação.  O prejuízo fica ainda maior, se por trás das pesquisas houvesse interesses ideológicos contrários à religião ou a grupos que incomodem. A Igreja católica, já afirmou o Papa Bento XVI em Aparecida, cresce não por proselitismo, mas por atração. Ela, com sua experiência de dois mil anos de história, já aprendeu a não se assustar com as estatísticas e nem com as interpretações ingênuas. Ela também já aprendeu a reconhecer erros das pessoas humanas que fazem parte de sua comunidade e sabe fazer exame de consciência; sabe inclusive pedir perdão pelas falhas humanas, coisa que não se tem visto em outros grupos religiosos ou não, certamente conscientes que errar não é característica de um só grupo, mas do ser humano como tal. Há os que afoitamente e ingenuamente caem na tentação de prognosticar o fim da Igreja católica, como se fenômenos sociológicos fossem a última palavra em tudo. A história não dá saltos. Ela ensina aos que são mais aptos a realizar análises maduras.

Aos católicos tranqüilizo, recordando que esta situação estatística não é a pior pela qual já passamos. Dou um exemplo: no fim do século XVIII, Napoleão Bonaparte prognosticou o fim da Igreja, quando prendeu injustamente o Papa Pio VI, levando-o como se fosse um criminoso para a França, jogando-o literalmente numa masmorra e gritando como vitorioso: Pio VI e último. Conseguiram os anticlericais franceses da revolução que muitos que professavam a fé católica e inclusive alguns eclesiásticos abjurassem a fé cristã o que provocou profunda dor à Igreja. Mas a história andou por outros caminhos. Sendo eleito o Papa Pio VII em lugar de Pio VI que morreu na masmorra de Napoleão, foi o novo Papa também aprisionado pelo imperialista francês de forma humilhante e desumana. Contudo, em 1814, quando Napoleão perde a credibilidade e a força política, sendo extraditado da Franca, o Papa é liberto e volta para Roma, aclamado em todas as cidades e povoados por onde passava em viagem, glorioso, mas sem se prevalecer de sentimentos de revolta ou de argumentos políticos. A Igreja não se envolve com paixões políticas ou por espírito de disputa, mas age para divulgar a única verdade que vale a pena ser assumida de corpo e alma: Jesus Cristo e sua missão salvadora. Eis o que sempre ensinou a Igreja. Eis o que os jovens têm recebido nas Jornadas Mundiais da Juventude.

 

Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

10 de setembro de 2011.

Turismo e exploração sexual. Um problema social brasileiro

IHU – Unisinos

Instituto Humanitas UniA Igreja e as Estatísticas Dias atrás, quando fomos informados pelo Papa Bento XVI que a próxima Jornada Mundial da Juventude será realizada no Brasil, em 2013, a mídia, com base em pesquisa de 2009, divulgou notícia a respeito do aumento numérico de outros seguimentos religiosos não católicos, inclusive dos que optam por não ter nenhuma religião ou que preferem o ateísmo. As jornadas mundiais da juventude têm demonstrado a ansiedade das novas gerações na busca de Jesus Cristo, reunindo milhões de rapazes e moças do mundo inteiro, formando, por uma semana, imensa comunidade juvenil sem limites geográficos, reunida ao redor do chefe visível da Igreja, pronta para ouvir a sua palavra e motivada a celebrar os Mistérios da fé, com entusiasmo e ao mesmo tempo com sensível espírito de concentração, silêncio sagrado, como ficou evidente em Madri. As estatísticas brasileiras a respeito da mobilização religiosa são colocadas aos católicos como um desafio, provocando pergunta inevitável: quais têm sido as razões para este efeito? Num primeiro momento, os dados colhidos em pesquisa não deixam de causar preocupação, uma vez que despertam a interrogação sobre as possíveis lacunas nos métodos evangelizadores. Porém, análise mais madura e serena provoca tranqüilidade. Levando-se em consideração que o método das pesquisas de 2009 foi questionável, o que gerou, na ocasião, abalizado artigo de protesto do Cardeal Dom Odilo Sherer, é curioso observar como as pesquisas não revelam o crescimento das comunidades católicas que tem provocado a criação de novas paróquias por todo o Brasil, novas comunidades e o crescimento inexplicável de movimentos eclesiais católicos que cada vez mais arrebanham pessoas desanimadas ou desiludias não só religiosamente, mas também com a situação existencial, para não falar das que perderam a fé nas correntes políticas no país. Influenciada pela mentalidade mercantilista de concorrência, muito própria dos regimes capitalistas, causando impressão que somente o critério da maioria é que vale, ou pela mentalidade totalitarista que imprime a crença na força do poder e a desastrosa crença que os fins justificam os meios, gerando violência para impor regimes políticos, as estatísticas pecam contra a verdade enquanto revelam apenas parte da situação. O prejuízo fica ainda maior, se por trás das pesquisas houvesse interesses ideológicos contrários à religião ou a grupos que incomodem. A Igreja católica, já afirmou o Papa Bento XVI em Aparecida, cresce não por proselitismo, mas por atração. Ela, com sua experiência de dois mil anos de história, já aprendeu a não se assustar com as estatísticas e nem com as interpretações ingênuas. Ela também já aprendeu a reconhecer erros das pessoas humanas que fazem parte de sua comunidade e sabe fazer exame de consciência; sabe inclusive pedir perdão pelas falhas humanas, coisa que não se tem visto em outros grupos religiosos ou não, certamente conscientes que errar não é característica de um só grupo, mas do ser humano como tal. Há os que afoitamente e ingenuamente caem na tentação de prognosticar o fim da Igreja católica, como se fenômenos sociológicos fossem a última palavra em tudo. A história não dá saltos. Ela ensina aos que são mais aptos a realizar análises maduras. Aos católicos tranqüilizo, recordando que esta situação estatística não é a pior pela qual já passamos. Dou um exemplo: no fim do século XVIII, Napoleão Bonaparte prognosticou o fim da Igreja, quando prendeu injustamente o Papa Pio VI, levando-o como se fosse um criminoso para a França, jogando-o literalmente numa masmorra e gritando como vitorioso: Pio VI e último. Conseguiram os anticlericais franceses da revolução que muitos que professavam a fé católica e inclusive alguns eclesiásticos abjurassem a fé cristã o que provocou profunda dor à Igreja. Mas a história andou por outros caminhos. Sendo eleito o Papa Pio VII em lugar de Pio VI que morreu na masmorra de Napoleão, foi o novo Papa também aprisionado pelo imperialista francês de forma humilhante e desumana. Contudo, em 1814, quando Napoleão perde a credibilidade e a força política, sendo extraditado da Franca, o Papa é liberto e volta para Roma, aclamado em todas as cidades e povoados por onde passava em viagem, glorioso, mas sem se prevalecer de sentimentos de revolta ou de argumentos políticos. A Igreja não se envolve com paixões políticas ou por espírito de disputa, mas age para divulgar a única verdade que vale a pena ser assumida de corpo e alma: Jesus Cristo e sua missão salvadora. Eis o que sempre ensinou a Igreja. Eis o que os jovens têm recebido nas Jornadas Mundiais da Juventude. Dom Gil Antônio Moreira Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora 10 de setembro de 2011. sinos

Adital

Entrevista especial com Dom Flávio Giovenale

“A situação da miséria é tão intensa, que o fato de alguém da família se prostituir por um determinado período é uma situação considerada normal”, declara Dom Giovenale, bispo de Abaetetuba, que há anos denuncia crimes de turismo e exploração sexual na Amazônia. Segundo ele, a miséria é a principal causa que leva as pessoas a se prostituírem. “Aqueles que moram no interior dos estados da Amazônia não têm perspectiva de vida. As capitais dos estados concentram a força econômica, enquanto os municípios do interior vivem do funcionalismo público, das aposentadorias e do Bolsa Família”, relata em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone.

Além da prostituição local, D. Giovenale diz que cresce o índice de vítimas do turismo sexual organizado por agências da região. Segundo ele, os jovens são levados à Guiana Francesa e ao Suriname, onde vivem como escravos em garimpos e bordéis. “Depois de migrarem para esses países, é difícil retornar porque para isso é preciso dinheiro. (…) Poucas pessoas conseguem superar a condição de miséria dos garimpos, pois estes locais são extremamente controlados”.

D. Flávio Giovenale, SDB, é bispo de Abaetetuba, Pará. Ele é um dos bispos ameaçados de morte por denunciar o tráfico humano. Ele sempre é acompanhado por agentes de segurança.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Desde quando acontece turismo sexual no Brasil? Quais são as razões que favorecem essa prática?

Dom Flávio Giovenale – Há dezenas de anos. Mas, nos últimos 15 anos, o turismo sexual se intensificou nas regiões Norte e Nordeste. Antes, as vítimas eram mulheres, mas, agora tem se intensificado o turismo sexual infantil.
Na verdade, o turismo é um meio utilizado para praticar a prostituição. Os estrangeiros, especialmente americanos e europeus, que se envolvem nesse tipo de turismo querem satisfazer seus extintos com “pessoas exóticas”. Eles pensam que o Brasil é o país do sexo e do paraíso. Há alguns anos, a propaganda federal brasileira contribuía para intensificar esse crime no país, pois apresentava o Brasil com imagens de mulheres e passava a ideia de que no país tinha “mulher fácil”. O nome Amazônia é algo mágico para os estrangeiros e eles gostam de dizer que fizeram sexo com uma pessoa da região.
Outra causa que facilita o ingresso de estrangeiros no país é a falta de controle policial. Portanto, passa-se a ideia de que no país é possível praticar um crime e ficar impune. Além disso, cresce, no mundo, uma propaganda em vista “do prazer custe o que custar” e algumas pessoas acabam priorizando o prazer.

IHU On-Line – Quais são os motivos que levam as pessoas a se prostituírem?

Dom Flávio Giovenale – Na Amazônia, a grande causa que leva as pessoas a se prostituírem é a miséria. Aqueles que moram no interior dos estados da Amazônia não têm perspectiva de vida. As capitais dos estados concentram a força econômica, enquanto os municípios do interior vivem do funcionalismo público, das aposentadorias e do Bolsa Família. Escutamos relatos que são inacreditáveis: pessoas trocam uma relação sexual por um cachorro-quente. É triste dizer isso, mas as pessoas se submetem a essa situação porque sentem fome.
Muitas meninas recebem propostas de morar na cidade para poder estudar e trabalhar em casas de família; mas, quando chegam ao local, se transformam em escravas sexuais. Elas são ingênuas e desconhecem a realidade. Por outro lado, alguns jovens pensam que a única perspectiva de vida é a prostituição. E, ao escolher entre ser prostituta do interior, passando fome, ou ser prostituta nos grandes centros, preferem migrar para as cidades com a esperança de não passar fome.

IHU On-Line – Na região também cresce o tráfico sexual entre a classe média?

Dom Flávio Giovenale – De vez em quando aparece alguma denúncia em relação à classe média. Porém, o tráfico sexual é muito forte em algumas regiões como a Ilha de Marajó – nesses locais há uma união entre miséria e organizações criminosas. Não sei dizer se aumentou o tráfico sexual ou se aumentaram as notícias e o interesse em investigar esses casos de prostituição.

IHU On-Line – Qual é o destino das vítimas do tráfico sexual? Existem rotas internacionais que favorecem a intensificação desse crime?

Dom Flávio Giovenale – Na região oriental da Amazônia, onde ficam os estados do Pará e Amapá, tem um destino que liga a Goiás, e de Goiás as pessoas são levadas para a Europa. A outra rota é por meio da Guiana Francesa e Suriname. Nesses dois países existem comunidades brasileiras clandestinas, que trabalham em garimpos. As vítimas do tráfico sexual são levadas a esses locais e trabalham em bordéis, garimpos, nas periferias das cidades e nas capitais.

IHU On-Line – Essas pessoas costumam retornar para o Brasil?

Dom Flávio Giovenale – Pouquíssimas. Voltam aquelas que são resgatadas pela polícia, mas, geralmente chegam ao país com pouca perspectiva de vida. Depois de migrarem para esses países, é difícil retornar porque para isso é preciso dinheiro. Algumas pessoas deixam de ser exploradas e passam a ser aliciadores, tornando-se subchefes do tráfico. Poucas pessoas conseguem superar a condição de miséria dos garimpos, pois estes locais são extremamente controlados. Nos bordéis, normalmente as mulheres são tratadas como escravas e são vigiadas.

IHU On-Line – O turismo sexual se configura como um problema social no Brasil? Em sua opinião, a sociedade e o Estado estão dando a devida atenção a esse problema?

Dom Flávio Giovenale – Nos últimos anos, aumentou a consciência de que o turismo sexual é um crime, tanto que a propaganda do Brasil no exterior foi alterada no sentido de mostrar as belezas naturais, sem apelo sexual. Também existe no país um desejo de mudança e um sentimento de revolta, porque os brasileiros não querem ser vistos como um “povo fácil”. Além disso, há um empenho positivo do governo contra o turismo sexual por meio de campanhas. Por isso lhe digo que não sei dizer se há um aumento do tráfico sexual ou se agora as autoridades estão descobrindo o que acontece. Em minha avaliação, a descoberta de casos de turismo e de exploração sexual demonstra que a luta contra os crimes está sendo eficaz.

IHU On-Line – Como a população reage diante do turismo sexual e da exploração sexual na região da Amazônia e do Pará? As pessoas costumam denunciar esses casos?

Dom Flávio Giovenale – A grande maioria da população reage com indignação. Mas a situação da miséria é tão intensa, que o fato de alguém da família se prostituir por um determinado período é uma situação considerada normal. É triste dizer isso, mas em algumas famílias todas as mulheres já se prostituíram. Geralmente, a história começa com a mãe; depois continua com a irmã mais velha, que ao completar 18 anos deixa de se prostituir porque chegou a vez da irmã mais nova, de 12 anos. Essas são situações localizadas, onde a venda do sexo para pessoas da região ou para turistas se torna uma atividade normal.

IHU On-Line – A construção de megaobras no Pará e na região tem favorecido a violência sexual?

Dom Flávio Giovenale – Todas as grandes construções implicam um deslocamento muito grande de pessoas. As fazendas da região também estão recebendo um aglomerado de homens, porque um projeto de biodiesel, coordenado pela Petrobras em 38 municípios do Pará, gera uma movimentação de milhares de pessoas na região, que migram para trabalhar nas plantações de dendê.
Nos dias de pagamento, as vilas dos agricultores enchem de prostitutas, que se prostituem de sexta a domingo. Muitos dos trabalhadores dessas grandes obras veem na prostituição uma diversão para final de semana. Essa á uma realidade que se repete em todos os grandes empreendimentos. Recentemente, li uma notícia de que o governo brasileiro está preocupado com os futuros eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas no sentido de evitar a prostituição.

IHU On-Line – Como vê a legislação e a fiscalização da exploração sexual e do turismo sexual no país?

Dom Flávio Giovenale – O Brasil está firmando vários acordos internacionais com países como Inglaterra, França, Itália para prevenir o tráfico sexual. Então, por exemplo, se um italiano abusar sexualmente de uma menina brasileira, o crime será julgado na Itália como se tivesse sido feito com uma menina italiana.
Há alguns anos, dois aviões fretados com turistas que tinham conotação sexual chegaram a um aeroporto brasileiro e, imediatamente, a polícia os mandou de volta para o país de origem. Penso que o Brasil não está fechando os olhos para o problema. Essa violência tem que ser tratada como um crime contra a humanidade.

IHU On-Line –Recentemente, jornais americanos repercutiram o envolvimento de empresas americanas com turismo sexual no Brasil. O senhor sabe dizer que empresas são essas?

Dom Flávio Giovenale – Li que a Polícia Federal está investigando uma agência americana de turismo, que tem base em Manaus. Essa empresa organizava um pacote turístico que incluía turismo sexual. Não vejo essa notícia como algo estranho porque o turismo sexual não se organiza sozinho; tem o apoio de agências. Alegro-me quando esses casos são descobertos e espero que os aliciadores sejam punidos.

IHU On-Line – O senhor continua sendo ameaçado de morte em função das denúncias que fez sobre o turismo sexual na Amazônia?

Dom Flávio Giovenale – Há dois anos e meio não recebo mais ameaças. Depois da divulgação de que eu estava sendo ameaçado, parei de receber mensagens. Recebo bastante apoio do povo e das autoridades que moram na região. Sinto-me bem trabalhando na comunidade e espero continuar meu trabalho com serenidade.

 

A força do Reino de Deus

No capítulo 13 do Evangelho de São Mateus se encontram várias parábolas ou comparações sobre o Reino de Deus. Palavras lindas que nos enchem de ânimo e de otimismo, porque nelas percebemos claramente uma grande lição: as forças do mal jamais vão prevalecer sobre o bem.Muitas vezes, devido a tantas injustiças, violências, corrupções, degradação moral, etc, temos a impressão de que tudo está perdido e que a situação do mundo só tende a piorar cada vez mais. Pensando assim deixamos de lutar, deixamos de semear as boas sementes, favorecendo, consequentemente, maior oportunidade para o crescimento do mal. Mas não precisamos ter medo.Devemos acreditar cada vez mais na força do Reino de Deus, conforme Jesus nos diz: “O Reino dos Céus é como um grão de mostarda que alguém pegou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras hortaliças e torna-se um arbusto, a tal ponto que os pássaros do céu vêm fazer ninhos em seus ramos” (Mt 13, 31-32).As coisas do mal parecem ter mais êxito, pois emprega-se o poder do dinheiro e de outras forças ocultas, que tentam massacrar qualquer tipo de iniciativa ética promotora da justiça. Mas essas forças não têm nenhuma solidez, nenhum brilho e não trazem alegria alguma. Tanto isso é verdadeiro que, quando aparece nesses ambientes corruptos e injustos apenas uma pessoa diferente e que seja honesta, digna, justa e solidária, ela ofusca e desmancha todas as articulações do mal.

As sementes do Reino sempre crescem e as do mal, apodrecem. Pensemos, por exemplo, na Beata Madre Teresa de Calcutá. Mulher franzina, humilde, mas cheia de sabedoria de Deus e de muito amor. Como sua obra caritativa e humana cresceu no mundo todo! Chamou a atenção de todos e muita gente se aproximou para ajudar. Essa e tantas obras boas existentes no mundo se tornaram árvores frondosas, que abrigam em suas sombras milhões de irmãos que estavam à míngua.

As coisas más caem logo no esquecimento, porque não vale a pena ficar lembrando coisas negativas. Aquilo que é bom, que é de Deus e do seu Reino, volta sempre em nossa mente e em nosso coração, porque traz sempre novas alegrias. Nesta vida, muitas vezes, temos que conviver sempre com as sementes do mal. Mas nunca devemos apreciar seus frutos, pois são estéreis, enquanto aquelas do bem permanecem para sempre. Perseveremos sempre nas obras do bem, do amor e da justiça.

Dom Vicente Costa é Bispo Diocesano de Jundiaí.

 

JUBILEU DE ORDENAÇÃO  SACERDOTAL DO PAPACôn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*No  dia 29 de junho deste ano  completam-se sessenta anos da ordenação sacerdotal do Papa Bento XVI, cuja cultura continua encantando a quantos o escutam, lêem e estudam seus livros. Os experts em ciências religiosas proclamam a profundidade de sua cosmovisão e de sua hermeutica das Escrituras, trazendo para o contexto atual diretrizes luminosas e abordando ângulos que passam desapercebidos a muitos que não decodificam a magnitude das verdades reveladas. Firmeza teológica sempre o distinguiu e isto explica, inclusive, a maneira sábia com que vem  hoje orientando a Igreja. Realiza ele em plenitude o que sempre desejara seu antecessor Pio XII, ou seja, é sadiamente moderno. Suas encíclicas  demonstram uma abertura admirável diante dos problemas atuais e fazem respirar a atmosfera do novo milênio numa nova visão de um cristianismo que deve dar forma à mentalidade dos que vivem todo o bulício de uma época inteiramente diferente com suas luzes e obscuridades, grandes realizações e retrocessos que afetam a dignidade do ser humano. Antes mesmo de ser ordenado presbítero, a seis décadas passadas, como estudante de teologia  ele sempre propunha novas questões e visava uma espiritualidade que descobrisse a alegria imensa da Redenção operada por Cristo. É que a imensa riqueza da doutrina deixada pelo Mestre divino e conservada pela tradição dos grandes teólogos pode e deve criteriosamente ser aprofundada e expressa nos diversos contextos históricos para que a Boa Nova ilumine ininterruptamente todas as gerações. A missão de Bento XVI de estar à frente do Rebanho do Redentor nos primeiros anos de um novo milênio tem acentuado sua capacidade de entender os novos tempos sem comprometer a essência da mensagem cristã. Embasado num conhecimento extraordinário do tomismo, o que o permite comunicar com uma limpidez encantadora, ele faz aparecer de uma forma notória o personalismo agostiniano que dá um tom especial no seu modo de expressar. Um exemplo disto é a distinção que Joseph Ratizinger deixa clara entre a sabedoria e o conhecimento, os quais devem estar sempre conexos, aliados, contudo, a uma grande humildade para se poder ter acesso à verdade.  Em São Boaventura, vulto notável do neo-agostinismo, portanto, continuando assim na alheta do Bispo de Hipona, se pode pinçar no pensamento ratizingeriano laivos da noção modernista de subjetividade o que fez com que ele já com papa pudesse apresentar suas reflexões pessoais sobre lances da vida de Cristo sem comprometer a objetividade dos fatos narrados no Evangelho. Cristo sempre o centro de todo conhecimento, mas apenas a fé é capaz de separar a luz de qualquer obscuridade, mesmo porque seu campo ultrapassa de muito as conquistas da razão, é bem mais vasto. Deve-se, de fato, buscar um posicionamento correto entre o fideismo e o racionalismo. Estava, assim, o atual Papa bem escudado para enfrentar os desafios intelectuais e culturais do final do século vinte, tendo podido influenciar positivamente nos documentos do Concílio Vaticano II. Sua colaboração foi decisiva sobretudo para os textos sobre a Igreja, a Revelação divina, a atividade missionária da Igreja. Deste modo ele impediu que aspectos meramente sociológicos prevalecessem. A doutrina cristã não poderia se ajuntar aos conhecimentos humanos meramente como um toque final. Tudo que se acredita  no Credo cristão, por ser profissão de fé, pode e deve estabelecer sua inteligibilidade e sua racionalidade próprias.  A Cruz estabelece um divisor de águas entre a Igreja e o mundo. A Igreja não deveria nunca perder sua identidade por entre as ondas das correntes filosóficas contemporâneas. A mensagem cristã é a única verdadeira força de libertação, foi a postura firme de Ratzinger por entre as discussões conciliares. A salvação só pode advir do Evangelho, não da filosofia ou da ciência, seja ela qual for. Baseado nestas convicções, como Papa, ele tem podido orientar os cristãos por entre as grandes mudanças trazidas pelo último Concílio e os sinais dos tempos. Para ele os desertos da pobreza, da fome, da sede, do abandono, da solidão, do amor destruído, do afastamento de Deus, todos os desertos exteriores  são resultados dos desertos interiores.  Eis suas palavras no livro-entrevista “Luz do mundo”: “Que o homem está em perigo e que coloca em perigo a si mesmo e ao mundo, hoje é confirmado também por dados científicos.  Pode ser salvo se em seu coração crescerem as forças morais; forças que podem brotar somente do encontro com Deus. Forças que opõem resistência”. É, por tudo isto, que a sólida cultura de Bento XVI tem sido capaz de revestir de tanto esplendor a Cátedra de Pedro, chegando, após sessenta anos de sacerdócio, a ostentar a pujança de uma sabedoria que não se dobra às invectivas do positivismo nem de um modernismo espúrio, porque fundada num profundo conhecimento teológico. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos. RELIGIÃO19/6/2011No Corpo e no Sangue de Cristo


Dom Vicente CostaNo capítulo 12 da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, no versículo 27, se lê: “Vós todos sois o corpo de Cristo e, individualmente, sois membros desse corpo.” Toda e qualquer palavra bíblica seria vazia se não estivéssemos unidos a Cristo e ao próprio Pai. É o que diz claramente o Evangelho de São João:”Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). É em torno desse mistério que a Igreja está unida. Como é que a Igreja poderia estar viva, atuante e unida se não ouvisse a Palavra e não celebrasse a Sagrada Eucaristia? Todos já estariam dispersos e cada um falando uma linguagem diferente.O centro e a raiz da Igreja é a Palavra, o Verbo do Pai, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade feita carne: “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Por isso é que a festa que vamos celebrar nesta semana, na quinta-feira, é de vital importância para todos nós: a Solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo. Como é maravilhoso, irmãos e irmãs, participar da vida de Jesus Cristo.Sem Ele não temos vida, ou temos apenas uma vida fútil e sem perspectivas de futuro. Com Cristo, ao contrário, experimentamos concretamente um amor profundo, um amor divino, um amor infinito, que dá certamente a todos os fiéis a garantia e uma visão do que é a vida eterna. “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne, entregue para a vida do mundo” (Jo 6,51).Certamente nós, cristãos e cristãs, muitas vezes já ouvimos essas palavras e recebemos o Corpo de Cristo. Mas a experiência e a certeza de que somos amados por Deus, de que somos salvos graças ao sacrifício de Cristo na cruz, que entregou seu Corpo para a redenção do mundo, podem e devem criar novas atitudes em cada um e cada uma de nós.É necessário, pois, que meditemos cada vez mais profundamente nesse mistério, para não incorrermos no perigo de entrar na rotina: participar da celebração da Eucaristia, receber o Corpo de Cristo, mas não experimentar a alegria do amor e da sua vitória sobre o pecado e a morte. Deste modo, queridos irmãos e irmãs, exorto-os a meditar mais profundamente sobre o grande milagre da Sagrada Eucaristia que Deus realiza diariamente em nossas Igrejas. Assim, no dia 23 de junho, na Festa de Corpus Christi, possamos todos exultar e vibrar de alegria!Dom Vicente Costa é Bispo Diocesano de Jundiaí.

 

COMUNICAÇÃO PERFEITA DO AMOR

“Ide… e comunicai a Boa Nova a todos os povos” (cf. Mt 28,19-20). Queridas leitoras e queridos leitores: a Igreja Católica celebra neste domingo a Festa da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que comunicou a todos o perdão e a paz de Deus. Depois, enviou seus discípulos em missão para anunciar esse mesmo amor a todos os povos. “Comunicar” é tornar comum o conhecimento sobre um fato ou, ainda, fazer com que as pessoas entrem em comunhão pelo acesso a uma mesma notícia. Por tal razão, a Igreja considera Cristo o mais espetacular comunicador de toda a história. Ele, sendo Filho de Deus, “assumiu a nossa natureza humana” (cf. Jo 1,14), e por suas palavras e ações comunicou a todos os que o cercavam o amor pleno de Deus. Capaz de transformar e curar tudo e a todos, Cristo é a comunicação perfeita e plena do amor.

A Ascensão recorda o início da missão apostólica confiada à Igreja por Cristo. A data foi escolhida pelo Concílio Vaticano II e celebrada em 7 de maio de 1967, pela primeira vez, como o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Tanto na primeira mensagem, a de Paulo VI, como na deste ano, de Bento XVI, com o tema “Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital”, o destaque é o potencial do mundo midiático.

Paulo VI contempla a extensão do fenômeno na história. Bento XVI fala da experiência já vivida e aprecia o avanço tecnológico dos últimos decênios, incluindo o evento da internet. Se o primeiro afirma: “Graças a essas maravilhosas técnicas, a convivência humana assumiu dimensões novas: o tempo e o espaço foram superados, e o homem tornou-se um cidadão do mundo…”, por sua vez, o Papa atual diz: “As novas tecnologias estão mudando ´não só o modo de comunicar, mas a própria comunicação em si mesma. As novas tecnologias permitem que as pessoas se encontrem para além dos confins do espaço e das próprias culturas, inaugurando deste modo todo um novo mundo de potenciais amizades´”.

Os dois pontífices destacam, porém, a necessidade de os cristãos não perderem de vista a missão inicial, narrada no Evangelho da festa que celebramos: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 19-20).

Se Paulo VI reconhece e Bento XVI completa: “Somos chamados a anunciar, neste campo também, a nossa fé: que Cristo é Deus, o Salvador do homem e da história, Aquele em quem todas as coisas alcançam a sua perfeição (cf. Ef 1,10)”. E a todos abençoo!

Dom Vicente Costa é Bispo Diocesano de Jundiaí.

CAPAZ DE CONTEMPLAR O CÉU

A inquietação dela se encontrava com a de Verônica, a mulher que, segundo a tradição, enxugou o rosto de Jesus com um véu branco, enquanto Ele carregava, nos ombros, a
caminho do Calvário, a cruz. Faz parte do ritual da Via-Sacra. No pano ficou
impressa a face de Cristo e a coroa de espinhos. O nome Verônica significa
imagem verdadeira. Destaca-se, na do caminho sagrado, a solidariedade das
mulheres no sofrimento e a coragem em tomar partido, quando os aplausos cessam
e muitos se afastam.

Conheci a moça da inquietação com 16 anos. A vida a maltratara desde criança, passando a se confundir nos apelos de seu corpo e do corpo dos outros; a se perturbar no
coração.

Juntou-se a danificadas e danificados como ela e vieram o álcool e as drogas. Foi nessa
época que passou alguns dias no cárcere, em outra cidade, considerada em
seguida inocente. Na cela sem lâmpada, encontrou a imagem pequenina de uma Santa.
Manteve-a apertada ao peito, pedindo que fosse reconhecida sem culpa e a
liberdade reconquistada. Perdeu-a na saída do presídio, mas não se esqueceu
dela. Tinha a sensação de que a Santa, da imagem como foto, a protegia.

Ao me dirigir ao encontro delas, para lhes dizer da misericórdia de Deus, o seu sorriso me
acolhia, bem como o seu olhar sagrado. Olhar sagrado de criatura de Deus. Foram
18 anos, de 1982 a 2000, sem nos perdermos de vista, ouvindo as dificuldades pelas quais passava e sobre sua esperança em criar laços que a salvassem do ser só. Depois desse
tempo, por caminhar na revelação de Deus, discernindo com clareza sobre a
ilusão e a felicidade verdadeira, conquistou a bravura para romper o vínculo
com as dependências químicas e tantas outras dependências. Escolheu, para esse
percurso, a Pastoral da Mulher. Mais próxima dela, notei-a pelas margens de
seus caminhos, a enxugar o rosto de Cristo nos que estavam doentes,
amargurados, com fome e sede, detidos, nos peregrinos.

Em 2007, quando fomos ao Carmelo São José, para rezar o terço, com as Monjas, reconheceu emocionada, na capela, que a Santa, que a protegera na cadeia e a guardara na
vida, era Nossa Senhora do Carmo. Repetia sempre esse acontecimento e que,
junto às Monjas, compreendera que o Espírito Santo de Deus curara o pus das
feridas nela cravadas.

Há um ano e meio encontrara alguém que se dispôs a viverem em parceria nos desencantos e no encantamento. Trouxe com ele a filha adolescente com limites, de quem ela se fez mãe. Residindo em bairro distante, rarearam os contatos com a Pastoral. Uma
fragilidade física inoportuna, quase de repente, a levou. Doeu demais em mim. Queria-lhe
um bem imenso. Além disso, angustia-me, quando Deus me concede a graça de
cuidar um pouco de uma pessoa por certo tempo, não estar próxima quando ela
adoece e vai embora. Incomoda-me demais. Gostaria de ter lhe oferecido um
último gesto de ternura e zelo. Que pena não conseguir.  Guardo, contudo, comigo, pela bondade de Deus e pelo sim dela, a certeza de que se foi como uma pessoa diferente de quando a conheci, com o olhar capaz de contemplar o Céu. 

Maria Cristina Castilho de Andrade

É educadora e coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/ Magdala

VEJA, SENHOR!

 Ela se preparara, talvez há anos, para acompanhar a Via-Sacra levando a Cruz. A possibilidade, contudo, naquela noite, acontecera em poucos dias. Um sonho das integrantes da Pastoral da Mulher/ Magdala em testemunhar, pelas ruas da cidade – as mesmas ruas em que foram vítimas de escárnio – que as dores pessoais de cada uma não as privou de ver que a dor suprema era a do Senhor, que Se entregara ao sofrimento e à morte para salvar o ser humano do poder do mal. Como profetizara Isaías: “Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele. A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura” (53, 2-5). A violência que lhes abriu úlceras e as empurrou para fora do rebanho como ovelhas desgarradas, não as impediu de voltar ao colo do Pastor que as buscara.

Foi a mulher expressão firme que, por primeiro, pediu para levar a Cruz. Os braços elevados e a Cruz fincada em seu peito em soluços pelas lembranças tristes e densas. Fez-se de silêncio. “O silêncio é um espelho em nós e devemos nos espelhar para contemplar quem somos” – diz o Frei Patrício Sciadini, OCD, em seu livro “Silêncio” – Edições Loyola – 2000. Olhou atenta o seu mundo de antigamente. O pai que se foi antes que a visse. A mãe que partiu aos cinco anos dela. A situação de escassez de alimentos, de roupas e de ternura em sua infância. Os meninos de família rica, culturalmente convidados a ser machos em lugar de homens puros, que passaram, em troca de bombons, a exercitar no corpo dela os seus instintos. O ruído dos bares noturnos, que reproduzia o dia todo, para não se encontrar com ela mesma. O rosto coberto pela maquiagem. A fome de comida e de amor. O achar-se perdida por culpa própria.

A noite da sua Via-Sacra, contudo, aconteceu de maneira diferente. A face sem brilho e cores artificiais. Os olhos límpidos, lavados, durante o percurso todo, por lágrimas. Estava no silêncio de Deus, em oração. Desinstalara-se das trevas para se colocar na madrugada da Ressurreição. Era o silêncio que anuncia o Frei Sciadini, “feito de amém, FIAT, eis-me aqui”. Silêncio de intercessão pelos seus.  Silêncio em que se instalou em si própria. Silêncio humilde, sem ego, avaliando suas fragilidades e de onde vem a verdadeira força. Alma em escuta. Experiência do que afirmou a Beata Elisabete da Trindade (1880-1906): “Eu valho muito: valho o sangue de um Deus feito homem”.

Ao se deparar com um hotel de alta rotatividade, no qual outrora estendera o seu corpo pela sobrevivência, virou a Cruz em direção a ele e, espontaneamente, exclamou em voz alta: “Veja, Senhor, não estou mais lá, porque O tenho em minha vida”.

Louvado seja o Deus Amor!

 Maria Cristina Castilho de Andrade

PÁSCOA, VIDA NOVA EM CRISTO

 Ao terceiro dia após a morte de Cristo, os discípulos encontraram os sinais da ressurreição, vendo o túmulo vazio, os lençóis que envolveram o corpo do crucificado e o sudário dobrado à parte. Os relatos evangélicos variam ao descreverem os fatos, mas não se contradizem, antes se completam. Os quatro evangelistas são unânimes em afirmar que Cristo ressuscitou e que as primeiras pessoas a chegarem ao túmulo vazio foram algumas mulheres, entre elas Madalena. (cf. Mt 28, Mc 16, Lc 24, Jo 20). São João apresenta maiores detalhes a respeito do diálogo de Madalena com o Ressuscitado. Ao vê-lo, exclama com emoção: Robbuni, que quer dizer Mestre. O alvissareiro anúncio primeiro vai a Pedro, chefe dos Apóstolos e ao discípulo amado, depois aos onze, depois aos demais discípulos. Naquele mesmo dia, à tarde, os discípulos reunidos em certa casa, possivelmente o Cenáculo onde Jesus instituiu a Eucaristia, O viram em corpo glorioso e falaram com Ele. É também João que relata o episódio do incrédulo Tomé, que não estava ali no primeiro dia e que esteve com o Senhor redivivo, oito dias depois, e pôde tocar as suas chagas. Prostrando-se, reza humildemente: Meu Senhor e meu Deus! (Jo.20,28)

Entre tantas outras manifestações, talvez a experiência mais bela da ressurreição do Senhor, tenha sido a dos discípulos de Emaús, narrada pelo Evangelho de Lucas

(Lc.24,13-35). Tristes pela morte, decepcionados pela tragédia, desesperançosos pela solidão, voltavam para casa. Mas eis que um estranho peregrino se põe a caminhar com eles e lhes aquece o coração quando fala. Ao chegarem às proximidades de casa, convidam-no à hospedagem e recebem a extraordinária revelação: ao partir o pão, ao fazer a oração, não puderam ter dúvida de que se tratava do mesmo gesto, da mesma forma de orar, afinal da mesma pessoa que, às vésperas da morte havia celebrado a Páscoa com seus discípulos e instituído a Eucaristia, sacramento da nova e eterna aliança.

Na beleza da literatura lucana, podemos perceber neste relato, além da descrição dos fatos, um maravilhoso simbolismo. Ali estão presentes, por exemplo,  os contrastes entre “escuridão” e “claridade”, pois ao chegarem em casa disseram os discípulos ao Peregrino: Fica conosco porque já é tarde e o dia já declina. (Lc.24, 29) Mas ao gesto do pão à mesa, seus olhos se abriram (Lc, 24,31).Antes estavam  obscurecidos pela incredulidade, por um olhar frio e secularista que os prendia somente à degradação da morte, agora estão no lume da fé que lhes revela a verdade sobre a vida e sobre todas as coisas. Onde está tua vitória, ó morte!Onde está o teu aguilhão? exclamará mais tarde Paulo aos Coríntios. (cf.1Cor.15,55) O retorno dos discípulos pressurosos e alegres é a imagem do fiel seguidor de Jesus e de toda a sua Igreja que estão sempre, como missionários, anunciando à semelhança de Pedro: Cristo ressuscitou e disto nós somos testemunhas. (cf. At.2,32)

Ficarão para sempre impressas as palavras de João Paulo II: Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, esse acontecimento central da salvação torna-se realmente presente e com ele se realiza também a obra de nossa redenção.  Esse sacrifício é tão decisivo para a salvação do gênero humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou para o Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos, como se a ele tivéssemos estado presentes. O que poderia mais Jesus ter feito por nós? (EE)

Cristo, pela sua morte, entregou-se à condição humana e pela sua ressurreição nos dá a possibilidade de participar de sua condição divina, no prisma da santidade e do amor, o que acontece já nesta vida, mas que culminará em plenitude na eternidade, a perene festa pascal.

Feliz e Santa Páscoa!

Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

 

A traição de Judas e a nossa traição

 Queridos leitores e leitoras:

 Iniciamos a Semana Santa: a semana maior da Igreja, em que contemplamos os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Gostaria de refletir hoje sobre um acontecimento que marca as celebrações desta semana: a traição de Judas. (cf. Mt 26,14-16).

 Judas negociou seu Mestre por trinta moedas (valor de um escravo). Apenas trinta! Podemos pensar: Que traição! Isso é revoltante! Jesus era tão bom, tão justo, tão amoroso… Como pôde Judas agir daquela forma? Se o colocássemos em um tribunal, sendo qualquer um de nós como juiz, a condenação seria certa por grande traição – e a sentença, a morte.

 No entanto, surge hoje a necessidade de refletirmos quantas são as vezes que também nós traímos o Senhor. Quantas moedas temos recebido, todas as vezes que trocamos o nosso Mestre por algo? Quantas moedas temos recebido quando, nos intitulando como seus seguidores, renunciando à nossa vocação de sermos seus discípulos missionários, corremos atrás de outras fontes que não nos alimentam e geram vida?

 Muitos dentre nós até gostam de Jesus, das suas palavras e de suas atitudes, se dizem cristãos, mas interiormente agem como quem anula os efeitos espirituais do seu sacrifício na cruz. Trocamos nosso Jesus pelas moedas das prioridades profissionais: “afinal, tenho que sobreviver e dar uma boa educação aos meus filhos… Tenho de trabalhar”; trocamos Jesus pelas moedas da juventude: “Ah, ainda sou muito jovem para pensar nas coisas da Igreja… certamente quando estiver mais velho…”; trocamos Nosso Senhor Jesus Cristo pela moeda do orgulho próprio, simplesmente deixando de servir à comunidade porque nos magoamos com alguém, como se a Igreja pertencesse apenas a homens mortais e pecadores… Será que isto não é, de fato, trocar e vender o sacrifício caríssimo de Jesus na cruz por um valor ínfimo?

 O que nos difere de Judas? Precisamos ser honestos para reconhecer que temos barateado o que não tem preço. No passado, foram apenas trinta moedas. Hoje, elas são inúmeras e imperceptíveis. Diante disso, estejamos arrependidos, celebrando bem a liturgia desta Semana Santa, sobretudo as celebrações do Tríduo Pascal (Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e a Vigília Pascal), e cuidemos para não trocarmos o Senhor por tão poucas moedas. Uma semana abençoada!

 DOM VICENTE COSTA  é BISPO DIOCESANO DE JUNDIAÍ

 

Semana Santa


Iniciamos, neste Domingo de Ramos, a Semana Santa. Ela é santa porque reflete profundamente sobre os últimos gestos realizados por Jesus, que culminaram em sua entrega na cruz para salvar toda a humanidade, e, finalmente, a sua Ressurreição no dia da Páscoa. Esses momentos são essenciais para a nossa caminhada na vida. Nossa vida não tem sentido sem a vida de Jesus.Vamos meditar, então, um pouco em cada um desses atos de Jesus para que aprendamos de sua humildade e consigamos viver cada vez melhor com nossos semelhantes. O Domingo de Ramos é a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11). O povo tomou ramos de árvores e com eles aclamaram a Jesus, reconhecendo-o como rei. Na Quinta-Feira Santa Jesus participa da ceia com os doze discípulos.Como servo, lava os pés de cada um e os beija (cf. Jo 13,1-20). É o maior gesto de humildade já visto. O Senhor se coloca no lugar do empregado para ensinar como é que nós devemos tratar os nossos irmãos. Depois toma o pão e o vinho e os consagra dizendo: “Isto é o meu Corpo” e, “Isto é o meu Sangue” (cf. Mc 14,22-24). Participando da ceia, que é um memorial eterno, estaremos participando sempre da vida de Jesus, conforme ele mesmo afirmou: “quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6,56).Na Sexta-Feira Santa celebramos o maior de todos os feitos de Jesus, quando se entrega totalmente, derramando até a última gota de sangue na cruz para libertar toda a humanidade do pecado. “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). “Tudo está consumado” (Jo 19,30). Foi a última palavra de Jesus antes da morte, e significa que, a partir daquele momento, a obra de Deus estava sendo completada, pois em seu Filho Jesus Ele tinha salvado toda a humanidade.Que semana maravilhosa, meus irmãos e minhas irmãs! É o amor de Deus que vem a nós em toda a sua totalidade. Não precisaríamos tanto; não merecíamos tanto! Mas Deus é assim, Deus é amor, o supremo amor! Vivamos, pois, esta semana com muita santidade. Vamos renunciar a todo pecado, que prejudica nossa própria vida e a vida de nossos irmãos e de nossas irmãs.Vamos nos reconciliar com as pessoas com quem temos alguma desavença. Vamos viver em paz uns com os outros para experimentarmos esse amor profundo de Deus por todos nós. Esses serão os frutos que colheremos de toda a Semana Santa. Essa será a nossa verdadeira ressurreição.Dom Vicente Costa é Bispo Diocesano de Jundiaí.

 

A  VITÓRIA SOBRE O PECADO

A pessoa humana está sempre sujeita a defeitos, a erros e ao pecado e terá necessidade de estar em contínua atitude de conversão. Nada a deve desanimar, nem mesmo as grandes faltas que por acaso tenha cometido, pois delas pode se arrepender, converter-se e obter de Deus o perdão. Vejamos o que o Senhor nos diz: No mundo tereis provações; mas tende coragem, eu venci o mundo (Jo.16,33).

O vocábulo converter, etimologicamente, significa verter os olhos para um mesmo ponto, no caso, verter os olhos para o seu próprio interior, revisando sua vida em relação à Palavra de Deus. Para tal exame é indispensável ter o olhar lançado em duas direções: para si mesmo, a fim de reconhecer suas falhas, e para Deus com objetivo de re-contemplar seu projeto e visualizar sempre de novo a sua misericórdia.

Para garantir o perdão a todos os que se arrependem e procuram sinceramente reconciliar-se com Deus, Jesus Cristo instituiu o Sacramento do Perdão, como se vê registrado no evangelho de São João 20,23, dirigindo-se aos apóstolos: Recebei o Espírito Santo! “A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles a quem os retiverdes serão retidos.”

A graça de Deus nos impele continuamente a recomeçar. A queda não pode derrotar quem tem um coração aberto para Deus, quem se dispõe a olhar para frente e sabe que sua força e sua meta estão mesmo no Senhor. Em Cristo somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou. (cf. Rm. 8,37).

Para bem compreender esta realidade humana de consistência frágil, basta olhar para as coisas materiais. Elas estão continuamente sujeitas à deterioração.  Envelhecem, estragam, acabam.  Assim também o nosso corpo, assim até mesmo o nosso espírito, que embora seja eviterno, passa por situações muito semelhantes à da matéria no que tange à fragilidade.  Mas há no homem o instinto de recomeçar. As coisas nós reformamos, restauramos, renovamos, trocamos peças, repintamos, recondicionamos.  Com nosso corpo nós o tratamos, o medicamos, curamos as feridas. Em relação ao espírito, o remédio que cura é a graça divina, é, na verdade, Cristo que restaura em si todas as coisas, assumindo os nossos pecados e por nós morrendo na cruz. Nele somos reconciliados. Cristo conviveu com o pecado sem se submeter a ele, para nos dar a graça de vencer o pecado, nos reconciliando com Deus.  Essa força regeneradora paga com seu sangue derramado na cruz se atualiza no Sacramento da Confissão. Por meio dele, nós participamos de Sua santidade. O mal nos engana, nos enfraquece, nos distancia de Deus, mas Deus vem em socorro da franqueza humana.

Por isso a Palavra de Deus nos diz: renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade. Revesti-vos do homem novo.   (Ef. 4, 23 – 24)

Algumas condições são indispensáveis para que gozemos do perdão de Deus. A principal delas é a humildade em reconhecer-nos pecadores e necessitados, irrenunciavelmente, da graça de Deus. Depois é necessário explicitar-se honestamente a Deus, relatando com autenticidade seus pecados a Ele, mediante o ministro sagrado que o representa, abrindo a ação de Cristo que lhe concede o perdão e o reconcilia com a comunidade.

Uma confissão sacramental bem feita traz-nos paz e encoraja-nos no progresso de nossa vida espiritual, comunitária e eclesial. A confissão nos dá a graça da reconciliação e nos devolve o ânimo na luta pela santificação pessoal em favor dos valores do Reino de Deus, de amor, justiça, solidariedade, perdão e paz.

A busca da reconciliação com Deus, com o próximo e com a comunidade de fé nos prepara para a noite santa da Páscoa, quando celebraremos a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Lá poderemos cantar com alegria Onde está a tua vitória, ó morte?! Cristo destruiu, com sua morte, todo pecado!

Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

7 de abril de 2011.

A santidade e a misericórdia
DOM VICENTE COSTA

Minhas queridas amigas e meus queridos amigos leitores: daqui a um mês, no dia 1º de maio, será beatificado pelo Santo Padre Bento XVI, o amado e saudoso João Paulo II, que esteve à frente da Igreja Católica por 34 anos, de 16 de outubro de 1978 a 2 de abril de 2005. Nesse tempo, adquiriu muitos e carinhosos apelidos em sua jornada em favor da dignidade da vida.
Foi o Papa Atleta, pela sua admiração pelos esportes e até prática deles. Foi o Papa do Perdão, buscando a reconciliação da Igreja Católica. Em nome da Igreja pediu perdão mais de 90 vezes pelo que considerou desvios históricos. Foi encontrar-se na prisão com seu algoz, Ali Agca, que no dia 13 de maio de 1981 tentou assassiná-lo a tiros na Praça de São Pedro, e perdoá-lo.
Em suas 124 viagens pelo mundo, foi também o Papa Apóstolo. Chegou a ser saudado, no Oriente Médio, pelo povo muçulmano, como o Príncipe da Paz.  Foi o Papa Comunicador, pela facilidade com que sua mensagem criava empatia junto aos comunicadores, o que se percebe no livro lançado dia 23 de março último: “Companheiros de viagem. Entrevistas em voo com João Paulo II” – um compêndio de histórias escritas por jornalistas vaticanólogos que o acompanharam. No livro, afirmam os jornalistas, que em nenhum momento dessas viagens João Paulo II pediu segredo sobre qualquer conversa ou declaração dada. E se poderia discorrer sobre muitas outras das virtudes que o faziam – apesar da sua humildade e simplicidade – ser temido e respeitado por grandes líderes mundiais.

Essas virtudes eram expressões de sua santidade, fundamentada no amor recebido de seu pai e sua mãe, no convívio da família, no encontro pessoal com Jesus – um encontro de amor ao qual consagrou plenamente sua história. Talvez, meus queridos amigos e amigas, vocês estejam se perguntando a razão dessa reflexão neste momento.

Explico: é que a beatificação se dará no primeiro domingo do Tempo Pascal. Na tradição católica, o primeiro domingo depois da Páscoa é chamado de Domingo da Divina Misericórdia. E isso deve nos encher de alegria, em relação ao novo santo da Igreja. Principalmente considerando que a vida e o Pontificado dele foram sempre plasmados pelo desejo de dar a conhecer ao mundo todo a “consoladora e entusiasmante grandeza da misericórdia de Deus”.

Que a beatificação de João Paulo II nos alegre também e ajude sempre a buscarmos a nossa própria santidade. “Santificai-vos e sede santos, porque eu sou santo” (Lv 11,44). E a todos abençoo!

Dom Vicente Costa é Bispo Diocesano de Jund

Fazer tudo com o coração


A primeira frase bíblica que recebemos na liturgia quaresmal, mais especificamente na quarta-feira de Cinzas, foi: “Voltai para mim de todo o coração, fazendo jejuns, chorando e batendo no peito! Rasgai vossos corações, não as roupas!”(Jl 2, 12-13a). É muito importante para todos nós, cristãos e cristãs, que os nossos propósitos quaresmais sejam realizados não como uma lei ou uma obrigação, mas com o coração voltado para Deus para que sintamos uma grande alegria interior.Todos nós, se nos conhecermos bem, sabemos que temos muitas limitações: pecados, apegos, escravidões. A Quaresma é um tempo litúrgico muito rico, que nos ajuda a renovar o nosso Batismo. Nessa caminhada nos é proposto também algum tipo de penitência: jejum, abstinência e renúncia a algo pelo qual nos sentimos muito apegados. Tudo isso tem um único objetivo: tornar-nos mais livres, mais espiritualizados, mais desapegados de tantas coisas que a sociedade nos impõe, coisas essas que são desnecessárias e muitas vezes até prejudiciais à nossa vida.Qualquer tipo de renúncia ou mortificação que fazemos na Quaresma não é nunca um sacrifício que fazemos para Deus, mas um gesto que vem nos ajudar na caminhada de fé, concedendo-nos uma experiência mais íntima e profunda com Ele. É nesse sentido que as orientações da Igreja em qualquer tempo ou situação e, mais ainda, no tempo da Quaresma, não devem nunca ser entendidas como um peso, mas precisam ser assimiladas com o coração para que produzam frutos de alegria.Só dessa forma é que poderemos fazer uma experiência da Páscoa, passando da escravidão para a liberdade, dos vícios para as virtudes, o que nos dará ainda uma sensação feliz de vitória, vitória sobre os pecados e  sobre a morte. Gostaria que todos os fiéis compreendessem que a Igreja sempre quer o bem dos seus filhos e das suas filhas. Ela deseja que todos eles se sintam amados e que também realizem todos os gestos, as celebrações litúrgicas e os sinais que expressem autenticamente sua fé com muito amor, com o coração, entendendo, vivenciando e experimentando as maravilhas de Deus em suas vidas.Que Deus abençoe e ilumine a caminhada de todos nesta Quaresma e que cheguemos todos unidos e felizes para a mais importante celebração da fé cristã: a Páscoa de Jesus Cristo, que será também a nossa Páscoa. Uma fecunda e rica experiência de Deus e da caridade para com nossos irmãos neste tempo que nos resta da Quaresma. Dom Vicente Costa é Bispo Diocesano de Jundiaí.

PARA SALVAR A VIDA

Publicado em 15/03/2011

Encontro, em “Um Sopro de Vida” de Clarice Lispector: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida”.

A moça buscou-nos para conversa particular. Pediu-nos ajuda para a compra do remédio miraculoso, que pode, segundo uma conhecida dela, curar-lhe o sangramento e as dores e impedir que fique oca. Desde menina, desprezaram o seu útero e ela viveu encolhida nele e dele, condenada à esterilidade.

O pai chegava amarrotado, malcheiroso e bêbado em casa. Primeiro, espancava a esposa e, quando os filhos cresceram um pouco mais, estendia a eles a sua agressividade. Em uma noite abafada, olhou para ela diferentemente e a fez recear mais do que os socos e a cinta com fivela de ferro. Desejava pedir ajuda, fugir pela escuridão, mas o temor a deteve e ela, com dez anos apenas, foi por ele possuída. A partir daquele dia, cessaram os  hematomas da mãe e dos irmãos e a sua súplica muda de socorro fez ferida na garganta. Quando a fechadura girava no ritmo dele, ela passava a ouvir gargalhadas tenebrosas, sons de tempestade, vozes de aves de rapina. O odor acre, o peso de cadáver, a respiração de animal descontrolado vinham em direção dela e a machucavam por inteiro: corpo e alma. A mãe e os irmãos, estrangulados por seus pavores, vestiam-se do silêncio que condena.

Quatro anos depois, ficou grávida dele. Assustado, passou a chamá-la de vadia e a questionar quem era o pai. A mãe e os irmãos, pelas crueldades experimentadas, procuravam crer que era ela ordinária e que, ao não afirmar o nome do pai da criança, se entregava a homens diversos, dispersos e desconhecidos, nas madrugadas em que tentavam ignorar que ela estava no cômodo ao lado, vitimada pela selvageria daquele que a gerara.

O útero murcho, amargurado, estendeu-se pouco e o bebê, de sete meses, portador de diversas anomalias, não chegou a um ano. Foi no enterro do filho que uma vizinha, capaz de traduzir o que aquela casa escondia, propôs-lhe o cabaré como libertação do pai.

Não estranhou a prostituição. O tormento em seu corpo e em sua alma eram os mesmos, apenas os rostos diferentes. O pai pensou em trazê-la de volta através da polícia. Mas se ela dissesse sobre aquilo que todos em torno sabiam, contudo por assombro calavam?

Foram anos assim: de bordel em bordel, em áreas de meretrício, em boates com fachada de festa… Nesse tempo, engravidou uma única vez. O bebê durou apenas alguns dias, após deixar o receptáculo de sementes estéreis. Acredita ela que a infecção, após o parto, a tornou infértil.

Aos 25 anos, depois dos dez anos de prostituição, como acontece com todas as mulheres, chegou a decadência.. Pôs-se nas esquinas, debaixo da luz trêmula dos postes, nos jardins escuros, com lábios de tinta e roupas reduzidas. Em incontáveis noites, nem lhe notavam e ela, para conter o desespero, pisava ébria no amanhecer.

Veio-lhe uma nova proposta: usar o útero para transferir drogas ilícitas ao sistema penitenciário. Entendeu como uma possibilidade de sobrevivência e especializou-se em invólucros de cocaína para burlar a revista. Em uma das vezes, inexplicavelmente, os papelotes se abriram dentro dela e o conteúdo, misturado a substâncias químicas, juntou-se à umidade natural e a corroeu por dentro, provocando o odor de carnes mortas.

O médico lhe disse da necessidade de cirurgia para extrair parte do aparelho reprodutor e cessar o apodrecimento. Não quer perder o útero. O útero recebe o óvulo fecundado até seu completo desenvolvimento. É o colo das entranhas que embala o bebê. A moça acredita que pode recuperá-lo. Perdê-lo a fará sentir-se sem vida. Sem ele, segundo ela, seria somente a portadora de um vazio desértico.

De acordo com o livro “Sonhos Lúcidos” – Editora Record – 1993 – de Florinda Donner-Grau, antropóloga alemã, as feiticeiras toltecas, que viveram numa região que vai do México setentrional até o norte da América do Sul, cerca de 7.000 anos atrás, acreditavam que o útero possuía funções mágicas, como a capacidade de voar e de ampliar o leque de percepções visuais e físicas. Para elas, todos os males da mulher eram decorrentes do que ela fazia com seu útero.

Voltando a Clarice Lispector, em colocação no livro “A Paixão Segundo GH”: “Nenhum homem fala a partir do útero, mulheres sim. O lugar de sua fertilização é o útero, não a mente. Sua gestação interior se dá no útero, não na mente”.

Para elaborar a perda inevitável de seu útero violado, creio que ela necessita engravidar da esperança que salva, aquela que tem o cordão umbilical em Deus.

Maria Cristina Castilho de Andrade

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MISTÉRIOS

Publicado em 15/03/2011

Partilhou conosco a sua alegria: em data a ser ainda definida, irá se casar. O parceiro, que conheceu em junho do ano passado, demonstrou que é de trabalho e de intenções sérias. Possuem diferenças e dificuldades. O álcool, nele, atrapalha. Chega “encharcado” em casa, mas, pouco a pouco, ela vai procurando caminhos para que ele, como ela, consiga vencer o vício. Um deles é ficar de tocaia na proximidade do bar, no horário em que ele costuma voltar do serviço. Vai ao encontro dele, como se não percebesse que a intenção primeira não era ela, mas o copo, e segue com ele, de mãos dadas, para o lar. O aroma da comida, com temperos exóticos, o detém.

Interessante ela: não foi à escola, não sabe ler e escrever, mas é de facilidade na fala, com poucos erros, e de percepção imediata da encruzilhada entre o bem e o mal.

Houve um tempo em que foi invadida pelo desvio que o pai carregava: a falta absoluta de controle sobre os instintos sexuais, atingindo a filha com tão poucos anos. Naquela época, ela ficou, além de corpo e alma ferida, com o discernimento confuso. Seria isso normal? Dentro dela algo falava que não. As pessoas próximas optavam pelo silêncio. A mãe castigou o pai com três meses de abstinência sexual, que ele “compensava” em outras camas, incluindo a da filha. Macularam a sua ingenuidade. O útero, porém, permaneceu infantil e estéril.

No tempo seguinte, ela se deixou conduzir pelos descaminhos, na crença de que não existiam outras opções. Nos bares, nos cabarés, nas ruas, nas praças, entregava, sem pudor, o corpo a homens estranhos – menos ruim do que ao pai – e eles lhe davam o poder de compra. Adquiria assim algumas peças de roupa de tecido ordinário, mas da moda, o brilho dos brincos e as pulseiras com balangandãs. Observava o masculino com sorriso de convite e o gingado no andar era de dança, de dia de festa, mesmo que por dentro chorasse. Quando foi empurrada para isso, o pai deixou de desejá-la. Não gostava de mulher desprezível.

Ela fez sucesso sem vitória. Ouviu o tilintar das moedas em sua bolsa, que, quase em seguida, escorriam de suas mãos. Parte do dinheiro, aquele que considerava poupar, entregava em casa para o sustento do pai, da mãe, dos irmãos. Apesar das tragédias acontecidas em casa, não abria mão do pai e da mãe e foi assim se fazendo mais deles e dos irmãos, pelos quais também se considerava responsável. Os companheiros, de tempo além da madrugada, eram usuários de álcool, pedra, farinha, como ela. Havia um de olhos verdes enormes com quem ela viveu, por dois ou três meses, em cômodos abandonados. A pele com cicatrizes de punhal. Observava as pessoas com expressão de tigre. Depois de duas ou três conversas, notei que ele se protegia das feridas que algumas palavras lhe causavam. Defendia-se não com as unhas ou as presas, mas com as fugas. O crack era, para ele, um salto à distância. De que exatamente “retirava-se às pressas”, nunca soube.

Na época em que se afastava lentamente da prostituição, o pai adoeceu. Difícil para a mãe tratar dele na cama. Contavam com a fraqueza ou a coragem dela. Estabeleceu, como valor, para o seu corpo ressequido: parcelas de um pacote de fraldas geriátricas.

Incomum, pelos machucados, a dedicação dela ao pai. Poderiam identificar como Síndrome de Estocolmo, que se desenvolve a partir das tentativas da vítima de se identificar com o agressor, a princípio como mecanismo de defesa, por medo de violência. O comportamento é considerado um estratagema de sobrevivência. A mente fabrica uma estratégia ilusória para proporcionar afastamento emocional da realidade perigosa e violenta à qual a pessoa está sendo submetida. Não é o caso, ela já não dependia da casa do pai.

Na morte dele, chorou. Creio que a dor de sangue foi a de perder o pai sem ter experimentado a relacionamento de filha.

Nos preparativos do casamento, destaca-se a cor do vestido: preto. Se fosse possível, o tapete e os enfeites do banco seriam negros e violeta. Comentou que o branco seria incoerência. O negro é mistério e dignidade: a pureza recuperada quando escolheu Deus como Construtor para recuperar os seus alicerces em ruínas. O violeta fala de honra, espiritualidade e autoestima.  O preto confere nobreza, distinção e elegância. O preto é a cor da profundidade e permite a autoanálise, a introspecção e absorve os raios de luz.

Quando ela adentrar a Igreja, ao encontro do homem amado, vestida de preto, o véu no rosto, os reflexos de luz que ela assimilou, não desistindo de uma história bonita, acenderão a noite. E é exatamente assim: todas as mulheres, com obstáculos menores ou imensos, são capazes de iluminar a noite.

Maria Cristina Castilho de Andrade

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